Primeira leitura: Joel 2,12-18 = Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes.
Salmo 51(50),3-6.12-14.17 = Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos contra vós.
Segunda leitura: 2Coríntios 5,20-6,2 = Reconciliai-vos com Deus. Eis agora o tempo favorável.
Evangelho: Mateus 6,1-6, 16-18 = Teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa.
RETOMAR O CAMINHO DA SOLIDARIEDADE E DA PAZ
Eis o seu convite:
Leituras da semana
Dez de fevereiro (Santa Escolástica): Dt 30, 15-20; Sl 1; Lc 9,22-25.
Onze de fevereiro (Nossa Senhora de Lourdes): Is 58, 1-9a; Sl 51(50); Mt 9,14-15.
Doze de fevereiro: Is 58, 9a-14; Sl 86(85); Lc 5,23-32.
Padre Paulo Roberto Rodrigues
Diretor Espiritual – Colégio Pio XII
Primeira leitura: Gênesis 2,7-9; 3, 1-7 = Deus plantou um jardim e nele pôs o ser humano...
Salmo 51(50),3-6.12-14.17. = Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos contra vós.
Segunda leitura: Romanos 5,12-19 = Onde se multiplicou o pecado, aí superabundou a graça.
Evangelho: Mateus 4,1-11 = Nem só de pão vive o ser humano...
A PAZ É O RUMO CERTO
Leituras da semana: 14 de fevereiro (Santos Valentin, Cirilo e Metódio): Lv. 19,1-2.11-18;Sl. 19(18) 8-10.15; Mt. 25,31-46.
15 de fevereiro: Is. 55,10-11; Sl. 34(33),4-7.16-19; Mt. 6,7-15.
16 de fevereiro: Jonas 3,1-10; Sl. 51(50),1-6.12-14; Lc. 11,29-32.
17 de fevereiro (Sete Santos Fundadores dos Servitas) Ester 14 1-3.5.12-14; Sl. 138(137),1-2.7-8; Mt. 7,7-12.
18 de fevereiro: Ez. 18,21-28;Sl. 130(129),1-8; Mt 5,20-26.
19 de fevereiro: Dt. 26,16-19; Sl. 119(118),1-5.173-175; Mt 5,43-48.
Prece comum: Senhor, animai nossa fé, consolidai nossa esperança e fortalecei-nos no amor, para que sempre busquemos a solidariedade, a justiça e a paz, superando toda tentação de construir este mundo e nossa vida sem contar com vossa presença generosa. Oramos em Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo.
Padre Paulo Roberto Rodrigues
Diretor Espiritual – Colégio Pio XII
Primeira leitura: Gênesis 12, 1-4a. = Sai da terra... e vai para a terra que eu te vou mostrar...
Salmo 32, 4-5.18-22. = Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, venha a vossa salvação!
Segunda leitura: 2Timóteo 1,8b-10 = Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida...
Evangelho: Mateus 17,1-9 = O seu rosto brilhou como sol...
VISLUMBRAMOS UM MUNDO NOVO
Leituras da semana:
21 de fevereiro (São Pedro Damião): Dn. 9,4b-10; Sl. 79(78) 8.9.11.13; Lc. 6,36-38.
22 de fevereiro (Festa da Cátedra de São Pedro): 1Pe. 5,1-4; Sl. 23(22),1-3a.3b-4.5.6; Mt. 16,13-19.
23 de fevereiro (São Policarpo): Jr. 18,18-20; Sl. 31(30),5-6.14.15-16; Mt. 20,17-28.
24 de fevereiro: Jr. 17,5-10;Sl. 1,1-2.33-4.6; Lc. 16,19-31.
25 de fevereiro: Gn. 37,3-4.12-13a.17b-28; Sl. 105(104),16-17.18-19.20-21;Mt 21,33-43.45-46.
26 de fevereiro: Mq. 7,14-15.18-20; Sl. 103(102),1-2.3-4.9-10.11-12; Lc 15,1-3.11-32.
Prece comum: Deus Pai e Mãe, Sabedoria eterna, Visão infinita, Intuição total: dai-nos profundidade no olhar, força ao coração, luz nos olhos da alma, para que sejamos capazes de transfigurar a realidade e contemplar vossa glória já agora, em nossa peregrinação terrestre, por Jesus, vosso Filho e nosso Irmão. Amém
Padre Paulo Roberto Rodrigues
Diretor Espiritual – Colégio Pio XII
Primeira leitura:
Êxodo 17, 3-7 = Dá-nos água para beber!
Salmo 95, 1-2.6-7.8-9 = Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!
Segunda leitura:
Romanos 5,1-2.5-8 = O amor foi derramado em nós pelo Espírito que nos foi dado.
Evangelho: João 4, 5-42 = A água que eu dou torna-se fonte que jorra para a vida eterna...
JESUS CRISTO: ÁGUA PARA NOSSA SEDE DE PAZ!
Leituras da semana:
28 de fevereiro: 2Rs. 5,1-15a; Sl. 42(41),2.3 e Sl. 43(42),3.4; Lc. 4,246-30.
Primeiro de março:Dn. 3,25.34-43; Sl. 25(24),4bc-5ab.6-7bc.8-9; Mt. 18,21-35.
Dois de março: Dt. 4,1.5-9; Sl. 147B(147),12-13.15-16.19-20; Mt. 5,17-19.
Três de março: Jr. 7,23-28; Sl. 95(94),1-2.6-7.8-9; Lc. 11,14-23.
Quatro de março(São Casimiro): Os. 14,2-10; Sl. 81(80),6c-8a.8bc-9.a0-11ab.14.17; Mt 12,28b-34.
Cinco de março: Os. 6,1-6; Sl. 51(50),3-4.18-19.20-21ab; Lc 18,9-14.
Prece comum: Deus, Pai e Mãe do universo, que em Jesus nos indicais qual é a verdadeira adoração. Fazei que compreendamos que chegou a hora de vos amar e servir, a cada instante e inteiramente, trabalhando pela justiça e em solidariedade com todos os nossos irmãos e irmãs. Como nos ensina a água da vida, Jesus vosso filho e nosso irmão. Amém.
Padre Paulo Roberto Rodrigues
Diretor Espiritual – Colégio Pio XII
Primeira leitura:
1Samuel 16,1b.4a.6-7.10-13 = O Senhor olha o coração!
Salmo 23,1-3a.3b-4.5.6 = O Senhor é o pastor que me conduz...
Segunda leitura:
Efésios 5,8-14 = Se no passado fostes trevas, agora sois luz no Senhor...
Evangelho: João 9,1-41 = Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo!
JESUS CRISTO: NOSSA LUZ PARA ENCONTRAR A PAZ!
Leituras da semana:
Sete de março (Santas Perpétua e Felicidade): Is. 65,17-21; Sl. 30(29),2.4.5-6.11-12a.13b;Jo. 4,43-54.
Oito de março (São João de Deus): Ez. 47,1-9.12; Sl. 46(45),2-3.5-6.8-9; Jo. 5,1-16.
Nove de março (Santa Francisca Romana): Is. 49,8-15; Sl. 145(144),8-9.13cd-14.17-18; Jo. 5,17-30.
Dez de março: Ex. 32,7-14; Sl. 106(105),19-20.21-22.23; Jo. 5,31-47.
Onze de março: Sb. 2,1a.12-22;Sl. 34(33),17-18.19-20.21.23; Jo. 7,1-2.10.25-30.
Doze de março: Jr. 11,18-20; Sl. 7,2-3.9bc-10.11-12; Jo. 7,40-53.
Prece comum: Deus, Pai e Mãe do universo, que em Jesus nos tocais e iluminais, abri nossos olhos para que possamos ver e colaborar na construção do vosso Reinado de Luz e Paz. Oramos em Jesus, Luz do mundo, vosso filho e nosso irmão. Amém.
Padre Paulo Roberto Rodrigues
Diretor Espiritual – Colégio Pio XII
Primeira leitura:
Ezequiel 37,12-14 = Porei em vós o meu espírito para que vivais...
Salmo 130,1-2.3-4ab.5-6.7.8 = No Senhor se encontra toda graça e copiosa redenção...
Segunda leitura:
Romanos 8,8-11 = Realmente o Espírito de Deus mora em vós...
Evangelho: João 11,1-45 = Eu sou a ressurreição e a vida!
JESUS: RESSURREIÇÃO PARA UMA VIDA DE PAZ!
Leituras da semana:
14 de março: Dn. 13,1-9.15-17.19-31; Sl. 23(22),1-3a.3b-4.5.6; Jo. 8,1-11.
15 de março: Nm. 21,4-9; Sl. 102(101),2-3.16-18.19-21; Jo. 8,21-30.
16 de março: Dn. 3,14-20.24.49a.91-92.95;Dn. 3,52.53-54.55.56; Jo. 8,31-42.
17 de março (São Patrício): Gn. 17,3-9; Sl. 105(104),4-5.6-7.8-9; Jo. 5,51-59.
18 de março (São Cirilo de Jerusalém): Jr. 20,10-13; Sl. 18(17),2-3a.3bc-4.5-6.7; Jo. 10,31-42.
19 de março (São José):2Sm. 7,4-5a.12-14a.16; Sl. 89(88)2-3.4-5.27.29; Rm. 4,13.16-18.22; Mt. 1,16.18-21.24a ou Lc. 2,41-51a.
Prece comum:
Padre Paulo Roberto Rodrigues
Diretor Espiritual – Colégio Pio XII
Não sei... se a vida é curta ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa
demais mas que seja intensa, verdadeira e pura...
Enquanto durar.
Padre Paulo Roberto Rodrigues
Diretor Espiritual – Colégio Pio XII
Mulheres de Atenas - Chico Buarque - Augusto Boal (1976)
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seu maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas
... A OUTRA
Dom de Iludir - (Caetano Veloso)
Não me venha falar na malícia de toda mulher
Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é
Não me olhe como se a polícia
Andasse atrás de mim
Cale a boca e não cale na boca
Notícia ruim
Você sabe explicar, você sabe entender
Tudo bem
Você está
Você é
Você faz
Você quer
Você tem
Você diz a verdade
A verdade é seu dom de iludir
Como pode querer que a mulher
Vá viver sem mentir
Família, um sonho de todo dia
Família: laços de ternura, tecido de desejos,
Família, trama amorosa, delicada utopia
Família, hoje não mais como ontem:
Casta, estirpe, pose, posse ou garantia...
“Família é quem você escolhe pra viver
Família é quem você escolhe pra você
Não precisa ter conta sanguínea
É preciso ter sempre um pouco mais de sintonia” (O Rappa)
Família, como profetizavam os latinos:
Todos e todas que compartilham o mesmo teto
Mesmo quando não se tem em comum um ancestral!
Família: lutando contra as misérias do quotidiano
“para que não mais existam amores servis
para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco a partir de hoje
e a família se transforme
e o pai seja pelo menos o Universo
e a mãe seja no mínimo a Terra...” (Caetano Veloso)
“Quem é minha mãe, meu irmão, minha irmã?”
Pergunta Jesus à multidão sentada ao seu redor!
E fintando-os diz: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos...
Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão,
minha irmã, meu pai e minha mãe!” (Marcos 3,32-35)
Hoje queremos a rua cheia de sorrisos francos
De rostos serenos, de palavras soltas e passos decididos...
com gente gritando e se abraçando ao sol!
Hoje queremos ver a bola da criança livre
os sonhos todos nas janelas e alegres peregrinos por aí...
Hoje queremos pedir desculpas pela pouca ousadia
E até pela tímida utopia que se esconde em nosso caminhar!
Hoje queremos ver em cada coração um sorriso
e em cada esquina um projeto de luz e um canteiro de som...
Queremos um carnaval no engarrafamento
e que dez mil estrelas risquem o céu
buscando a sua casa no amanhecer...
Hoje queremos que a nossa poesia dance pelas ruas
Registrando músicas sem pretensão
Convocando toda a cidade para a redenção
e que as buzinas toquem flauta-doce
e os carros se transformem em carruagens de fogo
e que, enfim, triunfe a força da imaginação! (inspirado em “Sem mandamentos” de Oswaldo Montenegro)
A BELEZA NOS SALVARÁ...
(confissões de um monge pós-moderno ou notas sobre a espiritualidade e a pós-modernidade)
"...eu fico com a pureza da resposta das crianças: é bonita! É bonita! É bonita" (Luiz Gonzaga Júnior)
Uma primeira confissão Gosto muito de cinema! Gosto de cinema como gosto das palavras... Por exemplo, cinema é a maneira abreviada de dizer cinematógrafo: escrever com a luz (fotografia) em velocidade (cinética: ação de mover, de colocar em movimento). Fazer trinta poses aparecerem em um segundo nos oferece a impressão de captar o movimento: doce ilusão! Um instigante casamento de luz e sombra, trevas e cores, coletivo e pessoal. Creio ser uma das maiores invenções do último século: a sala escura, o jogo de luz e sombra, a projeção situando sonhos e fantasias, plastificando angustias e inquietações... Coisas da estética que burla a imitação da vida em favor da invenção da arte de viver! Uma grande descoberta. Para mim, o cinema é um ambiente sagrado: congrega pessoas, mobiliza desejos, nostalgias e esperanças. Por isso, convido-lhes a um aperitivo, assistindo o filme Matrix!
Onde fica o coração? Datado de 1999, distribuído pela Warner Bros., Matrix (do latim: matriz, mãe) tem como título original “The Matrix” (a omissão do artigo definido em português sublinha o caráter enigmático do título, talvez para favorecer uma maior vendagem) e como protagonistas Keanu Reeves (O Advogado do Diabo,1997) e Laurence Fishburne (O Enigma do Horizonte,1997), com roteiro e direção dos Irmãos Wachowski. Está classificado como ficção científica, focando os adolescentes como público alvo: ora por causa das seqüências de lutas marciais, ora pelo esmerado lote de efeitos especiais, além da trilha sonora comandada por um “rock pesado”. Mas é uma película que guarda surpresas, com um roteiro bem costurado, recheado de citações literárias (Alice no País das Maravilhas, Macbeth, entre outros) e algumas boas perguntas para se pensar (O que é o real? O que é ser humano?)... Este filme não existiria sem o telefone e o computador (podendo se afirmar, sem exageros, que estes constituem seus principais personagens)! Sua trama supõe um mundo interconectado: a era das novas tecnologias de informação e comunicação. No começo e no final, a tela toma um tom esverdeado com uma seqüência de números – os abstratos bits e bites – verdadeiras paredes onde se concretiza o enredo pelo qual somos convidados a enveredar. Os sonhos se confundem com a realidade, a realidade é uma espécie de espelho dos sonhos... Afinal de contas, o que é real?
Uma possível resposta é a vida de um jovem, interpretado por Reeves, vivendo no final do século XX: um sujeito dividido; durante o dia, cumpre as tarefas de um programador numa grande empresa de softwares; à noite, vive recluso, com suas interrogações sobre o sistema, aficionado em seu computador. Para a empresa (a sociedade e a polícia) ele tem um nome (Andrews), na rede de computadores ele é outro: Neo (que pronunciado em inglês nos lembra a palavra novo... O novo não é sempre outro para o que já está aí?) Não nos interessa sua atividade diurna: apesar deste jovem querer controlar a própria vida, ela não passa de mais uma engrenagem no bom funcionamento da máquina, do sistema (ela é mais uma linha de comando no sistema operacional)... Vestido como um executivo ele se perde num mar de execuções. À noite aparecem as diferenças, as tribos, os descontentes, a resistência (que também toma a forma do narcótico: viajar pela Internet ou por um programa novo, é mesmo que velejar com a mescalina!) A noite é o lugar do sono e dentro dele do sonho... Aqui aparece um outro personagem, vivido por Fishburne: Morfeu, o senhor do sono segundo antiga mitologia, que arrancará o jovem de sua ilusão, confrontando-o com a pergunta – quem é a Matrix?... Quem é a matriz, a mãe, de toda esta situação? Outra é a realidade: a história se dá, talvez, no final do século XXI, numa terra desolada, mergulhada na escuridão causada pela terceira guerra mundial... Um conflito não entre países ou blocos opostos ideologicamente, mas entre máquinas e seres humanos. A criatura se rebelara contra o criador! A tão celebrada tecnologia se transformara em tecnocracia. O instrumento se torna o instrutor... Impossibilitadas de retirar energia da luz solar, as máquinas descobrem nos seres humanos sua fonte de sobrevivência, sugando-lhes a bioenergia desde o nascimento até a morte... Para mantê-los nesta escravidão (sem revoltas), as máquinas criam um poderoso software que projeta nas mentes humanas uma realidade virtual: a situação que vigorara no final do século XX. Este sistema operacional é a Matrix! (Que realmente não é a mãe, o lugar ou algo onde se cria, mas aquela que consome, que esgota, que se alimenta do outro! Filha e/ou parasita?) Está desenhada a trama, na plasticidade própria do conflito entre luz e trevas, real e virtual... Temos esboçada a dinâmica da luta entre a escravidão e a liberdade, a fatalidade e a determinação, o simulacro e a invenção, o dado e o porvir, a morte e a vida... Na dança eterna das polaridades, delineiam-se possibilidades: de um lado a resistência, procurando quebrar as leis do sistema; de outro lado os agentes, suas armas e estratagemas, no intuito de manter a situação... De um lado o ferreiro (o principal agente de Matrix chama-se Smith) que controla o virtual, em contrapartida o novo que desatina o real! Neo é convocado por um pequeno grupo da resistência (Morfeu e seus sete companheiros) a liderar a libertação dos seres humanos, guardando o segredo do "centro do mundo": Sião (palavra em hebraico que quer dizer lugar seco, banhado pelo sol, monte sobre o qual se construiu Jerusalém, a cidade da paz)! Vitrine de nossa atualidade, tempo que ousamos nomear de pós-modernidade, este filme desfila o amálgama do novo com o antigo: a luminosidade da cidade & a obscuridade da nave de Morfeu; o navio pirata da resistência & a sofisticação biomecânica; a razão instrumental & a sabedoria oracular; a sofisticação armamentista & a elegância marcial; o hoje que será amanhã & o amanhã que é ontem; a sedução da imagem/ação & a reflexão da palavra/emoção; a velocidade da informação & a lentidão da revelação; a determinação da guerra & a obstinação do amor... Nesta narrativa temos condensada a magia dos antigos com seus mitos e lendas, alinhavada na objetividade da cultura dos modernos, transfigurados no desejo do progresso na ordem! Aqui reside a sua espiritualidade, manifesta na miragem de sua simulada materialidade: o virtual como virtude & vício! Assim não podemos fugir para o centro do mundo, senão alçar asas ao céu (como faz Neo, desligando o telefone, abrindo novas trilhas – virtuosamente!). Mas, onde fica o coração? Ele não se confunde com a nuca ou com o ouvido! Não se esgota na conexão imediata com as imagens (computador), nem tampouco se reduz na mediação telecomunicativa (telefone)... Estamos fadados ao encontro, a tecer e entreter relações & reações! Temos fome e sede de algo mais... É isto o que nos sugere o "hotel do coração", imagem que inicia e finaliza "The Matrix". Em meio as nossas lutas necessitamos de beleza!...
Uma segunda confissão Recentemente, fui procurado pela imprensa para comentar o filme "Dogma". Disse que nada podia afirmar pois, até então, não havia assistido a película. O repórter, de forma um tanto deselegante, em linhas gerais, contou-me o enredo e fez algumas perguntas, entre elas o por que da minha paixão por cinema... Tomado de inspiração, disse-lhe, prontamente: "ora, porque a beleza nos salvará! Confesso que eu mesmo fiquei intrigado com esta afirmação. Descobri depois que ela aparece como interrogação num romance de Dostoievski, onde um ateu pergunta ao seu príncipe (um crente): Que beleza salvará o mundo?! Máximo Confessor (místico cristão do século VII) afirmava que "o universo é chamado a tornar-se morada do Reino péla beleza"! Estou apaixonado por esta perspectiva: o que nos salvará é a beleza... Penso que alguns, como o repórter, ficarão um tanto assustados! Geralmente associamos salvação com religião (melhor dizendo, com as instituições religiosas) ou então com outros poderes (dinheiro, política, informação)... Eu tenho fome, nós temos fome de beleza. A necessidade de beleza é o que mobiliza os seres humanos. Duvidam? Prestem atenção às propagandas: todas elas nos convidam e seduzem para a beleza, elas mexem com nossos profundos desejos. As campanhas publicitárias para vender cigarros são meu melhor argumento. Elas nos fazem comprar a morte sorrindo! Não é por acaso que as grandes empresas gastam muito com suas contas publicitárias. Se concordamos que os seres humanos estão plasmados pela sede da beleza, então podemos dizer que ela nos salvará... Nós procuramos o belo, mas nem sempre o encontramos e acabamos por nos contentar com suas imitações: débeis cópias. Uma das grandes invenções, novamente envolvendo a luz é a fotocopiadora (a famosa máquina de xerox). Muitas vezes confundimos a cópia com o original. Por isso, partindo de nossa sede do belo, penso que a beleza é um tipo de experiência religiosa. Religião: o que liga tudo, o que nos faz ver tudo ligado. Salvação: encontrar sentido nas coisas, nos acontecimentos, na vida, nos sentimentos. Volto ao cinema: ter um final feliz. Ter fim = findar (finados)... A beleza é uma experiência do divino, de algo/alguém que nos ultrapassa, experiência de plenitude (também de vacuidade). Se buscamos a verdade é porque é bela, se desejamos a justiça é porque é bela, se praticamos a bondade é porque ela nos torna belos... Não podemos confundir beleza com aparência e com modelos, a beleza é uma experiência de profundidade ou como diz Fernando Pessoa de inteireza: “em tudo sê inteiro, como a lua cheia cabe toda numa poça d’água”. Ser inteiro, completo... esta é a razão de nossa nostalgia, estamos quebrados, fragmentados e por isso nos deixamos levar pelas cópias, perdemos os originais... Onde está o nosso original, o que somos? Quando estamos diante do belo nos encontramos: sim, a beleza nos salvará! Esta foi a minha experiência ao assistir "A Excêntrica Família de Antonia" (Antonia's Line), produção belgo-holandesa , direção de Marleen Gorris, com Willeque Van Ammelrooy, Marina De Graaf, premiado como melhor filme estrangeiro em 1995 pela Academia de Holywood. Penso que um breve comentário, ilustraria meus sentimentos!
Celebrando a vida... Podemos começar pelo nome. O título em inglês poderia ser traduzido por “A linhagem de Antonia”, diga-se de passagem, algo muito mais neutro do que o adotado em português. Linhagem, descendência, são palavras que estão distantes da excentricidade: de uma forma ou de outra, todos nós vivemos e viemos de uma família; e toda família, como grupo humano, tem suas particularidades. O título em português, além da conhecida finalidade publicitária, não revela o susto que nos provoca(ria) a Família de Antonia? Que outros nomes poderíamos dar ao filme... Minha sugestão: Celebração da vida! De fato, Antonia é a protagonista. O sujeito do filme é feminino, mas não só, trata-se de um olhar feminino sobre a vida: Antonia é filha, mãe, avó, bisavó! Uma verdadeira árvore da vida, com galhos, flores, frutos e sementes! De Antonia surgem Daniele (filha, mãe e avó - vidente, escultora, pintora), Therese (neta e mãe - matemática e música), Sara (bisneta - vidente, poetisa, narradora)... Uma seqüência temporal que se revela uma simultaneidade espacial: em torno destas quatro mulheres agrega-se uma Comunidade (homens e outras mulheres, crianças, jovens, adultos, idosos) que se localiza numa pequena aldeia da Holanda. Pequena aldeia, espelho da aldeia global!
O tempo também é circular: a narrativa começa pelo fim. Trata-se do último dia da vida de Antonia, o momento de sua morte, que proporcionará a reunião de sua família e a retomada de sua história, narrada por sua bisneta. A morte (outra personagem feminina?!) começa, perpassa e termina a narrativa. O começo de sua linhagem principia com o retorno de Antonia para sua aldeia para rever sua mãe, que morre ao escutar o seu nome. O fim é o começo e o começo é o fim! Este artifício narrativo se manifesta também pelo uso da lua cheia, figura do feminino (espelho que reflete a luz solar, mistério que governa a noite, o vigor das águas e dos líquidos). As fases da lua, organizam o tempo e nos remetem ao ciclo menstrual... Este ciclo se reproduz na terra, com suas quatro estações: primavera, verão, outono, inverno. Se tudo começa no inverno (a morte de Antonia e sua mãe), há possibilidade de renascimento com a primavera, pois é a bisneta (a narradora invisível) que enxerga um sentido em todos os acontecimentos: é o olhar do futuro que fecunda o passado. Podemos dividir estes fatos em quatro momentos: (primavera) morte da mãe de Antonia e construção da comunidade; (verão) os variados encontros amorosos (afeto e conhecimento); (outono) começo dos funerais; (inverno) suicídio do filósofo e morte da Antonia. Ainda a circularidade pode ser encontrada no desenho especial da família de Antonia: não apenas laços de parentesco; nela são acolhidos todos aqueles que estão marginalizados em sua aldeia, sempre recebidos por Antonia com extrema tolerância e generosidade. Aqui temos um acento feminino: a dádiva. Sem preconceitos, os excluídos (o órfão, a deficiente, o estrangeiro, o viúvo, a mãe solteira, o ex-padre, etc.) são recebidos como parceiros da protagonista e a vida é acolhida como ela é, enfrentando os conflitos que esta atitude impõe. Destaco ainda, o desencontro entre a católica e o protestante que, mesmo apaixonados, nunca se tocam, a não ser nas suas exéquias. Como também as duas situações de estupro, assimiladas com extrema delicadeza: na primeira cena, ausência de palavra e riqueza de imagens destacando a mulher solidária à mulher; na segunda cena, há ausência de imagem e riqueza de palavras na maldição de Antonia, saltando à emoção a maneira o irmão afoga o irmão (o estuprador). Por fim, ao lado de Antonia, temos o personagem de um filósofo pessimista, o Dedo Torto, seu antigo companheiro e de seu “marido”. Ele polariza o aspecto masculino, que vê a vida como tarefa a ser desempenhada/pensada. Ele, como já foi dito, se suicidará. Coerente com seu pessimismo diante da vida e do sentido para viver, perspectiva oferecida por sua atitude analítica, racional, ética. Enquanto para Antonia a vida é uma dádiva, nunca um peso, dom generoso a ser partilhado e constantemente transfigurado... Antónia assume a sua morte, conduzindo seu último dia com a mesma intensidade do seu cotidiano, indo ao encontro das pessoas que ama, dançando com a morte a valsa da vida!
Terceira confissão "A beleza é um nome divino porque produz comunhão"... Sou cristão, e ouso dizer-lhes que a minha experiência com Jesus de Nazaré tem sido a da beleza! Um dos textos sagrados que mais gosto é um em que Jesus se diz o pastor belo... Nossas traduções dizem o bom pastor, porém a palavra que adjetiva o pastor é kallé (donde vem nossa palavra caligrafia: escrever bonito!)... Na Palestina de vinte séculos atrás, pastores eram adolescentes munidos de pequenas flautas que congregavam seus rebanhos com música. Até hoje encontramos pequenos pastores trabalhando assim... A beleza de Jesus para mim está em sua humanidade, apaixonante humanidade... As suas verdades eram poemas ou estórias/parábolas. O seu caminho, as trilhas dos homens e mulheres, dos sofredores, dos marginalizados, sua compaixão o fazia sempre próximo de todos e todas... Sua vida é vida que se entrega – doação! As Sagradas Escrituras Cristãs têm quatro textos amplamente conhecidos como Evangelhos, isto é, boas novas, boas notícias. Narrativas em torno da pessoa de Jesus de Nazaré, na fé intitulado o Messias, o Senhor. Não são, e seus autores não quiseram fazer deles, uma biografia (escrita da vida, organização cronológica ou não de dados, fatos e vivências). Ao contrário, sua costura literária não esconde sua intenção apaixonada: esta vida está carregada de significados para outras vidas. Não é apenas notícia, é uma boa nova; não é apenas um relato a mais sobre gestos e palavras de um judeu do primeiro século de nossa era. Estas palavras e ações traduzem valores que ultrapassam o seu acontecimento. A escrita mais que grafia passa a ser pintura, poesia, parábola, não é somente espelho mas janela!
Desde de Guttemberg somos seduzidos pela escrita, porém no século vinte conhecemos outras maneiras de registrar a vida, seus sonhos e realizações. Hoje já conseguimos escrever com a luz (fotografia), imitar o real com a luz (fotocópia) e simular o movimento com a luz (cinematografia). Neste um século de cinema, pudemos recuperar um antigo desejo dos místicos: a visão beatífica, a filocalia (o amor à beleza)!. Conseguimos escrever com a luz aquilo que vemos nas sombras. E, é num ambiente escuro que vemos a luz... Deixemo-nos seduzir por uma boa vista, uma bela visão!
Boas Vistas... Assim, penso que poderíamos comparar as quatro boas novas (dos cristãos) com quatro boas vistas (do cinema). Muito se produziu em cem anos de cinematografia em torno da personagem de Jesus de Nazaré: das versões encomendadas por instituições religiosas (que pretendiam propagar sua biografia miraculosa e sobrenatural) às provocativas leituras de diretores autônomos (refletindo sobre a humanidade revelada neste símbolo da cultura ocidental). Destaco quatro diretores, entre os meus prediletos: Pier Paolo Passolini, Franco Zefirelli, Martin Scorcese e Denys Arcand. Os três primeiros de nacionalidade italiana, sofrendo, portanto, a influência de ter em Roma o centro do catolicismo; enquanto Denys Arcand é canadense. Passolini nos deu uma visão muito original de Jesus como o seu Evangelho segundo Mateus. A película é rodada em preto e branco, revelando um Jesus imberbe, cabelos curtos e sempre cobertos por um turbante, discursando com olhos fixos para a platéia (do cinema). Trata-se de um protagonista que enfrenta opositores que, pelas vestimentas, estão muito mais próximos da hierarquia da Igreja Católica da metade do século XX do que dos escribas e fariseus retratados no Evangelho. A importância dada a palavra num meio onde o visual (cor e movimento) são tão importantes, nos colocam diante de uma metalinguagem: falar do humano é algo sobre humano, isto necessita de reverência e mistério. As cores e movimento podem ofuscar a radicalidade e profundidade da realidade (o simples, o eterno que o preto e branco podem revelar). Ou: a hipocrisia é muito colorida e exige uma boa dose de sinceridade (preto no branco) para ser superada. Passolini sempre foi um crítico das instituições (do Estado à Religião, passando pela Família) na medida em que impedem o fluir da humanidade. Este olhar conflitivo com as instituições está sem dúvida na leitura feita pela Comunidade de Mateus e em sua narrativa que recupera as raízes judaicas mais profundas em Jesus de Nazaré. Mesmo sendo o mais recente, datando de 1989, creio que podemos estabelecer um paralelo entre a criação de Denys Arcand com o Evangelho segundo Marcos. Trata-se de Jesus de Montreal. Montreal fica muito longe de Nazaré? Esta película nos permite localizar Jesus no espaço-tempo: o monte pode não ser real, mas dá nome à moderna cidade (que não tem mais de quinhentos anos), aludindo também ao lugar de onde se pode ver muitas coisas... A atualidade de um texto pretensamente velho! Um jovem ator é contrato por um padre para modernizar uma tradição da cidade: a Apresentação da Paixão de Jesus. O jovem ator aceita o desafio, pesquisa e organiza o seu grupo (dois atores e duas atrizes descontentes com a sua atuação), juntos produzem o texto que provoca impacto (misto de sucesso e rejeição) e requer a participação dos visitantes, que respondem intensamente. Eufóricos, os atores assumem novas atitudes e vida comum (confronto com a publicidade, manifestação da sanidade). Temendo perseguição por parte de seus superiores eclesiásticos, o padre despede o ator/diretor e resolve retomar o antigo roteiro, mas os atores se rebelam e, em nova apresentação, o conflito é acentuado até a prisão e morte do diretor. Sugerindo que a narrativa deveria ser refeita, Daniel/Jesus tem seus olhos e coração doados e seus companheiros de atuação criam uma nova organização em defesa do teatro... O acento sobre a atividade do protagonista nos remete ao censo dramático de Marcos que coloca a continuidade da narrativa (que é só um começo!) nas mãos dos seus leitores. Arcand refaz a narrativa de Jesus como muita atualidade, colocando um drama freqüentemente entendido desde o mundo rural, no ritmo alucinante da moderna metrópole: o evangelho (tanto quanto Sheakespeare) não são velhos, depende de quem os interpreta. Como em Passolini a crítica às instituições aparece, sobretudo enfocando a crítica ao mercado (simbolizado pela publicidade-propaganda). É possível ter novo olhar e novo coração (transplantes realizados no final do drama) diante de Jesus, pois Montreal e Nazaré na geografia cinematográfica se confundem!
Jesus de Nazaré (1979) de Franco Zefirelli tem a moldura de um épico, apoiado nos recursos holywoodianos, transporta para a tela uma estória grandiosa, com cuidadoso trabalho fotográfico e atores renomados. Chama a atenção os enigmáticos olhos azuis de Robert Powell (papel-título), a beleza das Marias (a mãe e a Madalena)... Aproximo-o da narrativa de Lucas, mesmo quando faz uso de textos que são próprios de Mateus e João! É a vida daquele que veio à terra para salvar a humanidade: da manjedoura à ressurreição. Tudo muito bem cuidado e enquadrado. Destaco a cena em que Jesus encontra-se com a mulher pecadora: Zefirelli sugere acontecer um beijo entre os dois, o que fica em suspense uma vez que o foco da cena se desloca para os espectadores do insólito encontro. Tudo fica no ar: a humanidade de Jesus, sua personagem controversa, suas críticas... Tudo é envolto no celeste mirar do ator e do diretor. É uma película onde a beleza se casa com a alegria, inclusive nos momentos mais tristes e dramáticos. Franco se transforma em um dos pastores que anunciam pelo mundo o nascimento (paixão e morte) do Salvador do mundo. Mais ou menos como na narrativa lucana, onde os pobres celebram as obras do Senhor a seu favor. Outro é o tratamento de Martin Scorcese, que domina Holywood tão bem quanto Zefirelli. A última tentação de Cristo (1988) tem como pano de fundo o romance homônimo de Nikos Kazantizakis: é um Jesus que na cruz se pergunta como seria a sua vida se, ao invés de assumir o peso da salvação, escolhesse o caminho da vida comum, com esposa e filhos. É uma bonita releitura da questão da consciência que Jesus tinha da sua divindade. Particularmente gosto da última seqüência quando o tentador, disfarçado de anjo, se revela diante de um Jesus velho que rastejando retoma o caminho da cruz e lá morre, dando um discreto sorriso: tudo está consumado! Esta sensibilidade pictórica encontro no quarto evangelho, com seus símbolos e discursos carregados de contraposições (luz-treva, céu-terra, carne-espírito). Scorcese nos revela um Jesus que vive um conflito interno profundo acompanhado por um Judas extremamente apaixonado e amigo. Fotografa com maestria os melindres antropológicos da experiência religiosa, o contato com o sagrado: o que parece do alto pode nos fazer rastejar, o que percebemos como peso poderá nos transfigurar. Mas a vida continua sendo mistério e desafio como sustenta o poeta: “oh, vida, minha vida, só te inventa quem te precisa” (Paulo Leminski)! Quatro boas vistas! Quatro visões beatíficas que coloco ao lado das quatro Boas Novas! Nenhuma delas esgota a beleza do encontro com o profeta da Galiléia, mas cada uma delas nos remete ao drama de nossa vida, transfigurado pela luminosidade dos nossos desejos e sonhos, precipitado pela densidade das nossas escolhas e opções. Não espero que estas fitas me falem de Jesus, na realidade, vejo-me refletido nelas.... Mais, todo filme é uma representação. Não me iludo que terminada a representação voltarei à realidade. Só que a realidade também é uma representação e, portanto, ainda uma ilusão. O que me possibilita uma nova leitura/ruptura ente a realidade da representação e a representação da realidade: O sagrado (coração de) Jesus, pelas mãos da técnica científica, participa da ressurreição da (minha) vida. As manchas de sangue contém toda a ambigüidade da história humana: pecado-e-graça. Calvário-Emaús. Quimera-cinema... Espelhar da transparência!
“O jejum do cristão na verdade não pode restringir-se a privações materiais, antes deve ser um alimento espiritual. O jejum do cristão deve alimentar a paz e não as querelas.” (São Máximo Confessor, Sermão Quaresmal, século VII)
Para alguns pode parecer estranho relacionar tempo com caminho. Acostumados estamos aos convites para exercícios físicos visando romper com nosso sedentarismo. Caminhar para colocar em movimento nosso corpo e suas potencialidades adormecidas, andar ou correr para garantir a qualidade da vida e mais alguns anos de saúde! Ora, não basta o bom condicionamento físico! Todos corremos o perigo não somente da atrofia muscular, mas também da paralisia da alma. Esta, quando esquecida ou reduzida, acaba sem condicionamento, necessitando um “alongamento” para superar a acomodação e o conformismo, tudo o que lhe impede de ser em nós o elemento de transformação e mudança! Por isso, a sabedoria de nossos antepassados amalgamou o tempo com o espaço, oferecendo-nos momentos para exercitar a nossa alma, dando-nos maior fôlego e preparo para superar tendências sedentárias e sectárias. Uma destas oportunidades é a quaresma. Quarenta dias para enveredar as trilhas do Ser! Tempo oportuno para tornar-se peregrino da paz, da páscoa/passagem, da vida em plenitude! Esta antiga oferta está carregada com o simbolismo do número quarenta: evoca a preparação e purificação da quarentena, sugere a necessidade da medida que valoriza todo enquadramento (discernimento), revela o objetivo e adequação de todo quadrante... Nas narrativas bíblicas este numeral remete à noção de purificação, êxodo, libertação, mudança, ascensão: é o tempo de duração do dilúvio, da permanência de Moisés no Monte Sinai, da peregrinação de Elias até o Monte Horeb, da provocação de Golias aos israelitas, da provação de Jesus no deserto, o intervalo entre a ressurreição e ascensão segundo Lucas... Eis a convocação quaresmal: uma vereda para a austeridade (encontrar o essencial-conversão) e para o trabalho (esforço) de buscar a verdade de si e do mundo (mudança de atitude)! Este tempo de movimento para o alto, para crescer e transcender, encontra na vida e na palavra de Jesus de Nazaré, Mestre em Humanidade, uma provocativa releitura das conhecidas atitudes religiosas ou virtudes morais: jejum, esmola e oração. Urge integrar numa unidade criativa e profunda as nossas relações: face aos outros (esmola), diante de Deus (oração), consigo mesmo e com a natureza (jejum). Insiste Jesus: “dar esmola”, mais que mero assistencialismo, é recuperar o equilíbrio nas relações com as pessoas (distantes ou próximas), acolhendo a desafio de promover a paz, praticando a justiça e a solidariedade; a “oração”, mais que simples devoção, implica na busca de satisfazer nossas necessidades profundas e interiores no encontro com o Deus verdadeiro; e o “jejum”, mais que exigência penitencial, aponta para a atitude de despojamento interior (respeito consigo mesmo e à natureza), tão necessário no relacionamento com o próximo e com Deus, cultivando a felicidade e a paz ao superar qualquer fanatismo ou ritualismo.
“Você tem fome de que? Você tem sede de que?” (Comida de Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes, Sérgio Britto em 1987)
Padre Paulo Roberto Rodrigues
Diretor Espiritual – Colégio Pio XII